Mídia Entrevista: Stalimir Vieira

 ”A rotina do criativo é fugir da mesmice. É um desafio permanente, não apenas de buscar soluções originais, mas pensar argumentação convincente para convencer os outros a correr certos riscos inerentes à criatividade.”

Gaúcho, redator, criador, mais de 30 anos de profissão. Dirigiu criação na DPZ, na W/Brasil, na Bates, em São Paulo, e na DDB Argentina. Diretor da Associação dos Profissionais de Propaganda (APP) e da Associação Brasileira das Agências de Publicidade (Abap). É membro do Conselho de Ética do CONAR. Stalimir Vieira, um dos maiores redatores brasileiros, bateu um papo conosco contando sobre sua trajetória, deu dicas e contou também como foi ter que substituir Olivetto. Confiram!

 

-MP: Como você começou?

Stalimir:  Eu comecei com estagiário de redação, em Porto Alegre, em 1975. Embora, sempre tenha gostado de escrever, precisei ficar um ano aprendendo como aplicar essa habilidade à publicidade. Meu primo, que era diretor de criação da agência, teve muita paciência comigo. UM ano depois, fui contratado.

 

-MP: Como foi a trajetória até se tornar diretor de grandes agências e associações?

Stalimir: Em 1980, resolvi fazer minha primeira viagem internacional. Fiquei dois meses de mochileiro pela Europa. Quando voltei, já não queria ficar em Porto Alegre, mas tentar trabalhar em São Paulo. Consegui uma entrevista com o Wahington Olivetto. Ele gostou do meu portfólio e acabou me contratando na DPZ. Fiquei lá por quase cinco anos. Recebi muitas propostas nesse período, mas a agência cobria. Finalmente, em 1985, a MPM, a antiga, do Mafuz, Petrônio e Macedo, me levou. Mas por pouco tempo. No final do mesmo ano, eu voltava para a DPZ, só que agora para a sucursal do Rio de Janeiro, onde fiquei por três anos, até o Washington me chamar de volta para São Paulo, como redator da W. Depois ainda tive experiências como diretor de criação na DDB, em Buenos Aires e na Bates em São Paulo. E nas agências em que fui sócio, DLS, Lara/Stalimir e Stalimir. Hoje em dia, tenho um consultoria chamada Base de Marketing, que presta serviços de direção de criação para a CMC, agência de Jaraguá do Sul, Santa Catarina, além de outros clientes.

 

-MP: Como é a rotina?

Stalimir: A rotina do criativo é fugir da mesmice. É um desafio permanente, não apenas de buscar soluções originais, mas pensar argumentação convincente para convencer os outros a correr certos riscos inerentes à criatividade.

 

-MP: Voce poderia falar um pouco sobre o “Somos todos Responsáveis?”

Stalimir: O “somos todos responsáveis” é uma iniciativa da ABAP, Associção Brasileiras das Agências de Publicidade, para responder às acusações que são feitas à propaganda de que não temos compromisso com a formção saudável das crianças. É um ambiente virtual, onde o assunto é debatido democraticamente.

 

-MP: Qual foi a agência que você mais gostou de trabalhar? Por que?

Stalimir: A agência em que eu mais gostei de trabalhar certamente foi a DPZ. Foi lá que eu aprendi com mestres como o Petit, o Zaragoza, o Duailibi, o Washington (Olivetto), o Neil Ferreira, a Helga Mietike, o Murilo Feliberto… Embora fosse um ambiente de muita vaidade e competitividade, o bom trabalho era sempre valorizado e ninguém economizava elogios quando você merecesse. A DPZ brigava pela criação, essa foi a minha melhor lição.

 

-MP: Você trabalhou na DPZ e teve a oportunidade de presenciar uma das maiores duplas de criação em ação. Franscesc Petit e Washington Olivetto. Como foi?

Stalimir: Foi maravilhoso, embora, muitas vezes, dolorido. Na DPZ, ninguém passava a mão na cabeça de ninguém. Ou você fazia as coisas direito ou amargava críticas bem duras. O Petit era bastante duro, exigente, disciplinador. Já o Washington, era debochado, gozador. Então, você tinha que buscar sempre o melhor. Era um esforço enorme de se superar o tempo todo. Para chegar num bom título, eu escrevia trintam cinquenta… Um texto era reescrito, quarenta vezes até ficar redondinho. Uma escola fantástica.

 

-MP: Em seu livro você conta que precisou substuir o Olivetto. Uma grande responsabilidade?

Stalimir: Sim, numa ocasião em que o Washington estava de férias. O Petit era muito autossuficiente, mesmo sem o Washington ele se virava sozinho. Só que dessa vez, precisou de ajuda. Ninguém se atreveu. Aí sobrou para mim. Foi aterrorizante, mas uma bela prova. Afinal, eu estava no meio de feras e substituindo a maior delas. E, claro, que o Petit não sentia a mesma firmeza sem estar com o seu dupla oficial. Nem eu tinha tanta coragem para defender as ideias. Mas no fim consegui uma coisa bacana: um bom conceito para a campanha que acabou sendo usado pelo próprio Washington quando voltou.

 

-MP: As agências brasileiras, nos ultimos anos, firmaram parcerias e outras foram vendidas, para agências de fora do país. O que você pensa sobre isso?

Stalimir: Essa internacionalização é natural, na medida em que os clientes também vão se tornando multinacionais. É um jeito de tornar as coisas mais baratas, fazer uma mesma produção para usar no mundo inteiro, uma mesma foto, um mesmo filme. Claro que não é bom para o desenvolvimento d euma linguagem mais brasileira. Mas por outro lado, fez muito bem para os profissionais daqui, qua ganharam o mundo.

 

-MP: Uma dúvida frequente: Como se monta um portfólio?

Stalimir: Um portfólio tem que ser montado com critério. O foco deve ser qualidade e não quantidade. Não faz mal que parte seja de peças veiculadas e parte de peças fantasma. O importante são as ideias. Mas também é bom ver que o profissional também sabe escrever texto mais longos, tem uma linguagem elegante, sabe o que está fazendo, domina o idioma.

 

-MP: Como está a situação do mercado pra quem tá começando?

Stalimir: O mercado está bom, há muitas oportunidades para quem tem talento e vontade de construir uma carreira. Precisa de esforço e perseverança.

 

-MP: Onde você quer estar daqui 10 anos?

Stalimir: Daqui a dez anos, eu quero estar onde tiver vontade de estar naquele momento.

 

-MP: Qual o perfil ideal de um estagiário, na sua opinião?

Stalimir: Um bom estagiário é uma pessoa atenta, consciente de que está ali para aprender; um bom estagiário é um trabalhador incansável, dedicado, que não se importa nem se abala de ter que fazer e refazer as coisas até elas ficarem boas. É um sujeito disposto, prestativo, colaborador, interessado, observador.

 

-MP: Para finalizar, você poderia dar alguma dica para quem está começando?

Stalimir: Leia muito, de tudo, dos clássicos da literatura à Contigo. Não tenho nenhum tipo de preconceito cultural. E escreva sempre, mesmo sem obrigação. Faça por prazer.